O constante problema do governo escolher campeões nacionais, sem dar pé de igualdade aos competidores, faz do Capitalismo de Estado, um sistema fomentador de desigualdes socias. Desigualdades piores até que as causadas pelo neoliberalismo. Um governo que utiliza os recursos do povo para favorecer uma duzia de empresários é o que temos à dolorosos 10 anos.
O fato negativo mais recente é explicitado no texto abaixo publicado na edição de número 4.495 do Relatório Reservado.
BNDES e Marfrig são chifres do mesmo boi
Eureka! O BNDES parece ter descoberto a picanha filosofal. Vai reinventar a operação de uma agência de fomento, colocando rabo e chifre na BNDESPar para impedir que a Marfrig caminhe para o abatedouro e o banco torne-se uma “Bovinobras”. O BNDES vai tirar dinheiro de um dos bolsos em colocar em outro. Para que fique mais claro: até 6 de fevereiro de 2013, ele converterá só o equivalente a 14,64% das debêntures da empresa em sua carteira, ou seja, R$ 366 milhões de um total de R$ 2,5 bilhões. O percentual não é mágico. Corresponde a um terço da emissão primária de ações de R$ 1,1 bilhão anunciada pelo frigorífico. Mas o firme da conversão está condicionado à realização da oferta até 6 de fevereiro. Nessa operação, o banco é financiador, acionista, garantidor, parceiro e seu próprio açougueiro. Vai engolir um baita prejuízo de R$ 1,238 bilhão (valor das ações em 24 de outubro para manter o boi vivo) no pasto. Procurado, o BNDES informou que “não pode fazer comentários sobre o assunto em função de Instrução da CVM”.
A conta é a seguinte: se convertesse as suas debêntures, como um acionista normal faria, o BNDES passaria de 13,94% para 44,1% do capital da Marfrig, tornando-se controlador da empresa. Nessa hipótese, como o frigorífico está penando para honrar seus compromissos financeiros e a emissão primária iria para o brejo, a “Bovinobras” trocaria chumbo consigo própria. Ou seja: o banco seria, ao mesmo tempo, credor e cobrador. Entenda-se que a garantia do BNDES, através da conversão das suas debêntures no valor de R$ 366 milhões, são, pelo menos, três patas do IPO. Como não dá para estatizar a Marfrig nem deixá-la quebrar, quem pariu o bezerro que o embale.
A forma de transformar o descaso com dinheiro público em pós-graduação bovina foi juntar orelha, focinho e miúdos em uma fumegante aposta de que abrir mão de 120.447.830 ações da empresa é muito melhor do que ver boi voando. Esse é o número cascudo de títulos a que o banco renunciará, não convertendo 85,4% da sua carteira de debêntures da Marfrig ao preço unitário de R$ 10,28, cotação do papel no dia em que o IPO foi anunciado. Se trocasse até a última debênture, auferiria uma rentabilidade da ordem de 138% em relação ao preço de conversão. Nada mal, né? Mas, na ortodoxia “papai com mamãe” do BNDES, esta é uma lógica míope. O banco descartou o controle pelo Estado, não converterá as debêntures porque acredita na empresa, viabilizará a capitalização através da emissão primária de ações e fez uma profissão de fé pública na prosperidade da Marfrig.
Entretanto, basta um passo para que esta racionália atravesse a fronteira da esquisitice. A própria data do IPO parece exígua para o fechamento da operação, não obstante o braço amigo do BNDES. E se a emissão não se confirmar, o banco pode cismar de aumentar o prejuízo e colocar mais dinheiro na Marfrig. Inventar, por exemplo, uma emissão debêntures não conversíveis. Tudo pode acontecer: fraldinha, rabada e mocotó, ao mesmo tempo. A torcida é que o BNDES, criador do minotauro em questão, esteja conduzindo essa manada com a competência e a visão estratégica que são sua tradição. A aposta em cavalos vencedores, como disse o presidente do banco, é parte integrante do jogo global. Como declarou Luciano Coutinho, “só os medíocres não entendem”. Mas, nesse caso, se não der certo, sobrarão para o BNDES e a Marfrig um sonoro “Muuuuuuuuuuu!”